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Greenwashing governamental? Concomitantes apostas em combustíveis fósseis e transição energética

Atualizado: 13 de set. de 2023

Como já destacamos em outra publicação aqui no Ruptura, uma das grandes pautas que levaram à eleição de Lula como contraponto ao governo Bolsonaro foi o compromisso com questões ambientais e climáticas que estavam completamente abandonadas nos últimos quatro anos [1].


Mencionamos também em nosso balanço da pauta ambiental dos primeiros seis meses de governo Lula que, em que pese os compromissos assumidos inicialmente, algumas pautas prioritárias do governo permanecem focadas em torno de práticas que contribuem para a emissão de gases que acentuam o aquecimento global, notadamente pelos compromissos que ainda existem com o agronegócio (setor responsável pela maior parte das emissões de CO2 e mal uso da terra no Brasil [2]) e pela insistência na exploração de combustíveis fósseis na Foz do Amazonas que, em que pese ter recebido negativa do Ibama [3] e gerado conflito entre a presidência (e a AGU) e Marina Silva (Ministra do Meio Ambiente) [4], já contam com parecer positivo da AGU [5]e continuam presentes no discurso do Presidente [6].


No dia de hoje, inclusive, a Ministra Marina Silva participará de debate com a Comissão de Minas e Energia da Câmara de Deputados sobre a possibilidade de exploração de petróleo no Amazonas [7]



Na última semana, o governo Lula anunciou proposta para regulamentação do mercado de carbono [8] (cujas ressalvas também ja ámencionamos em outro post)[9] e segue insistindo em uma "transição energética" como imagem do governo [10].


Nesse contexto, fica a pergunta: o governo insistirá na proposta de exploração de petróleo na Foz do Amazonas, mesmo diante de todos os alertas técnicos sobre a periculosidade do projeto OU assumirá realmente a "transição energética" que propõe para um modelo pós-fóssil?


No momento, o andamento concomitante de ambos os discursos parece mais uma espécie de "greenwashing" por parte do governo e afasta o Brasil do movimento que vem ganhando força em outros países da América Latina, como Equador e Colômbia, contra a exploração de combustíveis fósseis na Amazônia - vale mencionar aqui as críticas realizadas pelo presidente da Colômbia durante a Cúpula da Amazônia e o resultado da consulta popular no Equador que registrou a vontade popular de proibir a exploração de petróleo e mineração no parque nacional Yasuní [11].


"Greenwashing" é um termo utilizado para descrever a intersecção de duas condutas que entram em contradição: uma comunicação positiva e ativa sobre desempenho ambiental, acompanhada por uma fraca ou inexistente performance nessa seara[12]. Em outras palavras: é o ato de disseminação de desinformação sobre a verdade das práticas ambientais de um determinado grupo, ou dos benefícios ambientais de um produto ou serviço[13]. O comportamento geralmente é utilizado em referência a empresas e corporações, sendo comum em campanhas de relações públicas, sejam elas no âmbito público ou privado.


A prática se dissemina na mesma velocidade em que a preocupação pela sustentabilidade passa a ser o foco de campanhas e de marketing. No mercado privado, o maior exemplo disso é a popularização de práticas de “environmental, social, and corporate governance” (ESG) traduzidas usualmente em ações afirmativas em prol da sustentabilidade, justiça social e ética empreendedora. A incidência dessa prática ocorre quando esses objetivos não são cumpridos efetivamente, sendo meras declarações para gerar engajamento positivo da imagem do produto ou serviço. A manifestação multifacetada de comportamentos de “greenwashing” afeta a confiança das pessoas em campanhas de sustentabilidade, podendo ser desafiador dissipar a ilusão das práticas verdadeiramente sustentáveis, na teoria e na prática. A transição para ações ambientais coerentes leva tempo, encontra muita resistência e falta de interesse, mas não é difícil identificar as práticas mais escancaradas de “greenwashing”. Contudo, as condutas mais perniciosas ocorrem quando elas silenciam quem efetivamente tem o dever e capacidade de denunciar, opor ou até mesmo barrar essas práticas.


No caso do governo brasileiro, a "transição energética" pode constituir um compromisso verdadeiramente perseguido ou servi apenas de "lavagem verde" (greenwashing) para uma gestão que não teria aprendido com os erros do passado. Apenas o tempo dirá.


[1] E. S. LERSCH. Erros e acertos na pauta ambiental: um olhar sobre o primeiro semestre do governo Lula. 7 jul. 2023. Ruptura. Disponível em: https://www.projetoruptura.org/post/erros-e-acertos-na-pauta-ambiental-um-olhar-sobre-o-primeiro-semestre-do-governo-lula

[2] A. B. MILCHERT: O aquecimento global e suas causas: conheça os setores econômicos mais poluentes. 19 jul. 2023. Ruptura. Disponível em: https://www.projetoruptura.org/post/o-aquecimento-global-e-suas-causas-conhe%C3%A7a-os-setores-econ%C3%B4micos-mais-poluentes;

[6] https://epbr.com.br/lula-defende-perfuracao-na-bacia-da-foz-do-amazonas/

[7] https://www.camara.leg.br/noticias/991082-comissao-debate-exploracao-de-petroleo-no-amazonas-com-marina-silva/

[11] https://www.projetoruptura.org/post/newsletter-11

[12] DELMAS, M. A.; BURBANO, V. C. The Drivers of Greenwashing. California Management Review, v. 54, n. 1, p. 64–87, 1 out. 2011, p. 64. [13] DE FREITAS NETTO, S. V. et al. Concepts and forms of greenwashing: a systematic review. Environmental Sciences Europe, v. 32, n. 1, p. 19, 11 fev. 2020, p. 6.





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