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  • Foto do escritorLeura Dalla Riva

OS PROBLEMAS DA AGRICULTURA MODERNA CAPITALISTA

Uma das grandes características da produção de alimentos moderna é sua base em monoculturas, isto é, a produção de apenas uma espécie de determinada semente, um único produto agrícola. Mas este é também um dos maiores problemas da agricultura atual.


Mas por que as monoculturas são perigosas?


1. As monoculturas atuais são profundamente baseadas no uso de sementes transgênicas e agrotóxicos, pois um demanda o uso do outro., Esses elementos afetam tanto a diversidade de plantas e animais dos ecossistemas como a própria saúde humana.

2. Ao afetar a biodiversidade, as monoculturas enfraquecem os ecossistemas e tornam as produções mais vulneráveis a fenômenos sociais e ambientais.


A venda de sementes transgênicas que está atrelada à venda de agrotóxicos, sendo ambos produzidos pelas mesmas empresas (Bayer, Syngenta, Basf, Dupont, Monsanto, Bunge etc.), conforme ressalta Gladstone Leonel Júnior (2019, p. 47). As sementes transgênicas são desenvolvidas por essas empresas para que só sobrevivem com o uso de agrotóxicos.


Essas sementes contaminam (são levadas pelas chuvas ou pelo vento, por exemplo) as plantações de sementes crioulas, gerando uma enorme dependência de todo o sistema de produção agrícola aos produtos produzidos pelas mesmas empresas que recebem lucros enormes com esse ciclo. Assim, os agricultores que tentam produzir sem o uso dessas sementes acabam tendo suas produções contaminadas por seus vizinhos.


As monoculturas foram implantadas historicamente sob argumento de que aumentariam a produção de alimento no mundo, superando problemas como a fome. Todavia, a maior parte da produção atual não é de alimentos:

A agricultura industrial hoje "produz apenas 30% dos alimentos destinados aos seres humanos, pois a maior parte da sua produção se destina a biocombustíveis e ração animal, sendo que cerca de 33 a 40% dos alimentos produzidos são perdidos na produção, transporte ou desperdiçados" (DALLA RIVA, 2020, p. 39).

O movimento histórico que implementou essa "modernização" no campo através do maior uso de máquinas, insumos, agrotóxicos e sementes transgênicas é chamada Revolução Verde e foi implementada sob argumento de que o desenvolvimento agrário seria a única solução para resolver o problema da fome (DALLA RIVA, 2020, p. 27). Hoje, todavia, já foi comprovado que o problema da fome no mundo não é uma questão de falta de produção, mas de má distribuição, desperdício e destinação da produção existente. Atualmente, "oito pessoas possuem mais riqueza do que metade da população mundial junta enquanto 800 milhões de pessoas passam fome" (DOWBOR, 2017, p. 26).


O uso de agrotóxicos também possui severos efeitos no meio ambiente e na saúde humana. Você pode saber mais acompanhando as postagens de nossa página destinada especificamente a este assunto.


E ao que mais as monoculturas estão associadas além dos transgênicos e agrotóxicos? É justamente por essa dependência das monoculturas elas são extremamente predatórias à diversidade de plantas e animais e também mais vulneráveis aos fenômenos naturais, criando também riscos aos próprios produtores e afetando a fertilidade dos solos a longo prazo:


"Os sistemas agrícolas mais diversificados possuem elevados níveis de tolerância a mudanças socioeconômicas e ambientais. [...] a perda da biodiversidade agrícola é causada sobretudo pela substituição das variedades locais e tradicionais e sua ampla variabilidade genética, pelas “variedades modernas de alto rendimento”. Ademais, é a biodiversidade e a capacidade de plantas e animais se adaptarem às necessidades humanas e às condições adversas do meio natural que assegura a sobrevivência de diversos grupos humanos em áreas sujeitas a estresses ambientais, pois é o cultivo de espécies diversas que protege os agricultores, em muitas circunstâncias, de uma perda total da lavoura, já que “[...] com as monoculturas, de estreitíssima base genética, ocorre o contrário: as pestes, doenças etc. atingem a única espécie cultivada e destroem completamente a lavoura” (SANTILI, 2009, p. 74)" (DALLA RIVA, 2020, p. 32).


O relacionamento entre seres humanos e natureza restou profundamente modificado a partir do avanço do capitalismo que acarretou a industrialização da agricultura que modificou severamente os modelos de produção até então existentes e substituiu as formas de cultivo tradicionais camponesas.


Esse modelo de agricultura capitalista se caracteriza pelo manejo dos recursos naturais de forma a artificializar os ecossistemas, levando à simplificação da estrutura ambiental em grandes áreas, afetando a biodiversidade de diversas maneiras, especialmente em razão do uso extenso de monoculturas que substituem a grande diversidade biológica natural por um número reduzido e vulnerável de espécies (ALTIERI, 2012).


Além de afetar a diversidade biológica, esse modelo afeta severamente a própria fertilidade do solo, pois retira os nutrientes do campo e não os devolve.


Aliás, foi esse esgotamento do solo ocasionado pelo modelo de agricultura capitalista no século XIX, como expôs o químico Justus von Libieg (FOSTER, 2005), que serviu como justificativa para implementação da política capitalista de “modernização” imposta pela revolução verde que, como tem se mostrado, não resolve o problema dos campos com eficiência, pelo contrário, cria ainda mais problemas ambientais.


Dentre esses problemas, vem se mostrando cada vez mais séria a perda de espécies importantíssimas para a própria produção agrícola (a exemplo dos efeitos negativos sobre as populaçoes de abelhas) que pode ser apontada como uma crise de biodiversidade.


Essa crise de biodiversidade vivenciada hoje se caracteriza pelo desaparecimento da variedade de seres vivos em razão da contaminação geral, da degradação ou destruição de habitats pelas atividades humanas.


O que é a biodiversidade? A biodiversidade pode ser conceituada como a diversidade das formas de vida existentes no planeta, o que inclui plantas, animais e micro-organismos. É a base ecológica da vida e também “capital natural” de dois terços da humanidade que dela depende enquanto meio de produção e “matéria-prima” (SHIVA, 2005).


Existem pelo menos três fatores que dão urgência a essa crise: o crescimento explosivo das populações humanas, as novas descobertas científicas para a diversidade biológica e a perda da diversidade pela extinção causada pela destruição de habitats naturais (WILSON, 1997).


Além disso, essa perda biodiversidade pode gerar a aparição de grandes epidemias, enfermidades de grande escala de cultivos básicos, afetar a produção agrícola de forma importante em um grande de número de países, bem como provocar alterações ambientais brutais que impulsionariam dramaticamente as migrações humanas. A perda de diversidade implica na destruição biológica de espécies fundamentais para manutenção do próprio ecossistema, o que compromete o desenvolvimento econômico e humano a longo prazo.


SUGESTÕES PARA APROFUNDAMENTO:



Esta obra é muito importante para aprofundar a questão das monoculturas e da racionalidade moderna. Shiva faz uma análise crítica do atual sistema de patentes e da perda de diversidade nas mais diversas áreas produtivas.


O saber científico dominante cria monoculturas da mente “ao fazer desaparecer o espaço das alternativas locais, de forma muito semelhante à das monoculturas das variedades de plantas importadas, que leva a substituição e destruição da diversidade local”



No Youtube você encontra diversas palestras e entrevistas com Vandana Shiva, cientista e ativista sobre temas como: monoculturas, biodiversidade, biopirataria etc:





Outros textos importantes da Vandana Shiva que indicamos são:


SHIVA, Vandana. Democracia de la Tierra y los Derechos de la Naturaleza. In: ACOSTA, Alberto; MARTÍNEZ, Esperanza (2011). La naturaliza con derechos. De la filosofia a la política. Quito: Ediciones Abya-Yala


Shiva, Vandana; Shiva, Kartikey. Il pianeta di tutti: Come il capitalismo ha colonizzato la Terra (Italian Edition). Feltrinelli Editore. Edição do Kindle. 2018


SHIVA, Vandana. Resources. In SACHS, Wolfgang. The Development Dictionary: a guide of Knowledge as Power. 2a ed. London: Zedbooks, 2010



REFERÊNCIAS


ALTIERI, Miguel. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular, Rio de Janeiro: AS-PTA, 2012.


FOSTER, John Bellamy. A Ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.AGRICULTURA MODERNA CAPITALISTA E PREDATÓRIA


DALLA RIVA, Leura. De Marx ao MST: capitalismo financeirizado e forma jurídica como entraves à agroecologia. 112f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências Sociais e Humanas, Programa de Pós-Graduação em Direito, 2020.


DALLA RIVA, Leura; GUERRA, Clarissa de Souza; IZOLANI, Francieli Iung; RUVIARO, Larissa Melez. Da agroecologia ao respeito à sociobiodiversidade: um olhar sobre a (im)possível sustentabilidade através de outra forma de produzir alimentos. In: Jerônimo Siqueira Tybusch; Francielle Benini Agne Tybusch; Liziany Müller Medeiros. Agroecologia e direitos da sociobiodiversidade. Santa Maria (RS, Brazil): Arco Editores, 2020 p. 52-72. Disponível em: https://www.arcoeditores.com/livros-1 or -


DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo: Por que oito famílias têm mais riqueza do que a metade da população do mundo? São Paulo: Autonomia Literária, 2017


LEONEL JÚNIOR, Gladstone. Derecho a la agroecologia: uma Concepción transformadora para América Latina. Rio de Janeiro: Processo, 2019.


SHIVA, Vandana. Monoculturas da mente: perspectivas da biodiversidade e da biotecnologia. Trad. Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Gaia, 2003


SHIVA, Vandana. Biodiversidade, direitos de propriedade intelectual e globalização. In: SANTOS, Boaventura de Sousa Santos (org.) Semear outras Soluções: os caminhos da biodiversidade e dos conhecimentos rivais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.


WILSON, Edward Osborne. Biodiversidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997


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