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A irresponsabilidade teórica e social do negacionismo climático


No mês de agosto deste ano de 2023 foi publicado um manifesto assinado por cerca de 1.600 (mil e seiscentos) cientistas de diversas partes do globo que defendem não existir uma emergência climática[1]. A Climate Intelligence – CLINTEL, entidade responsável pela publicação do documento, foi fundada em 2019 e se denomina como uma fundação independente que atua nas áreas de mudanças climáticas e políticas climáticas.[2]


A declaração intenta minar todas as disposições publicadas pelo IPCC, desde o aumento da ocorrência de eventos extremos, perpassando pelo perigo da manutenção ou aumento de emissão de dióxido carbônico (CO2), chegando a afirmar que a humanidade não se encontra em um momento de emergência climática por o aumento de temperatura verificada se tratar de mais um ciclo natural da Terra[3]


Algumas explicações são necessárias para que não se caia nestas falácias, são elas:


1° O efeito estufa é um fenômeno natural e que permite a existência de vida na Terra. Sem a sua ocorrência a temperatura média da Terra seria em torno de -30ºC (trinta graus celsius negativos).[4]



2º Não obstante esse caráter "natural" do fenômeno, o aumento da concentração de gases do efeito estufa – especialmente dióxido de carbono (CO2) – na atmosfera implica no “aumento do cobertor” que aquece o planeta. Em decorrência disto, eventos catastróficos tendem a ocorrer com mais frequência e com mais intensidade. [5]


3º Por certo existem ciclos de resfriamento e aquecimento da Terra ao longo de seus cerca de 4,5 bilhões de anos, não há de se questionar isso. Entretanto, a emissão de gases do efeito estufa (GHG/GEE) advindos da atividade humana posteriormente ao período da Revolução Industrial (Século XVIII) é um fator externo a esses ciclos e que provoca desequilíbrio no Sistema Terra.[6]



4º - A Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) publicou um estudo conjuntamente ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) no qual é evidenciado que a perda da biodiversidade está intrinsicamente conectada ao aumento da temperatura média da Terra causada pelo aquecimento global antropogênico.[7]


5º - As mudanças climáticas não só são uma realidade e provocam um cenário de emergência como também ocasionam impactos de forma desigual que atinge primeiramente as comunidades mais vulneráveis. Diante desta realidade é que se procura promover Justiça Climática para as comunidades desfavorecidas e fortemente acometidas por estes infortúnios.[8]


Apesar de parecer um número de expressão com figuras que apelam para argumentos de autoridade, estes grupos negacionistas representam uma minoria ruidosa que alcança vitrines sensacionalistas. A busca por narrativas fantásticas e dissonantes movimenta um mercado publicitário que deveria, em razão de um compromisso social, dar voz e espaço para aquilo que é voz majoritária, comprovada e repisada cada vez mais por instituições credibilizadas em cenários nacionais e internacionais.


Quanto antes essas irrealidades e elocubrações forem tratadas como tais, melhor a humanidade conseguirá lidar com os grandes e inevitáveis desafios que se apresentarão em seu futuro próximo.


Notas e referências

[1] Para leitura do documento publicado: https://clintel.org/world-climate-declaration/ [2] Sobre a fundação: https://clintel.org/about-us/ [3] O conteúdo do manifesto foi explorado em texto publicado no periódico espanhol El Debate: https://www.eldebate.com/sociedad/20230904/mas-1-600-cientificos-desmienten-emergencia-climatica_137002.html [4] Também abordamos este assunto quando falamos sobre os setores econômicos mais poluentes. https://www.projetoruptura.org/post/o-aquecimento-global-e-suas-causas-conhe%C3%A7a-os-setores-econ%C3%B4micos-mais-poluentes [5] O 6º relatório de avaliações do IPCC faz uma abordagem detalhada sobre os efeitos adversos que são e serão potencializados com as mudanças climáticas. Você também encontra algumas considerações sobre o tema em: MILCHERT. Artur B. Emergência global climática – Reflexões acerca de um direito fundamental à integridade do sistema climático e a demanda por justiça na ação do movimento Fridays for Future. Monografia (Bacharel em Direito) – Centro de Ciências Jurídicas, Fundação Universidade Regional de Blumenau – FURB. Blumenau, SC, p. 12-18. [6] Sobre a ciência do Sistema Terra, recomenda-se a leitura de VEIGA, José Eli (org.). Gaia: de mito a ciência. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2012. [7] Pörtner, Hans-Otto, Scholes, Robert J., Agard, John, Archer, Emma, Arneth, Almut, Bai, Xuemei, Barnes, David, Burrows, Michael, Chan, Lena, Cheung, Wai Lung (William), Diamond, Sarah, Donatti, Camila, Duarte, Carlos, Eisenhauer, Nico, Foden, Wendy, Gasalla, Maria A., Handa, Collins, Hickler, Thomas, Hoegh-Guldberg, Ove, … Ngo, Hien. (2021). Scientific outcome of the IPBES-IPCC co-sponsored workshop on biodiversity and climate change (Version 5). Zenodo. https://doi.org/10.5281/zenodo.5101125 [8] https://www.projetoruptura.org/post/justi%C3%A7a-clim%C3%A1tica-um-caminho-para-um-futuro-sustent%C3%A1vel

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