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  • Foto do escritorGuilherme Schneider de Moura

Conexões ambientais invisíveis

Guilherme Schneider de Moura


Sem ainda termos certeza de que há vida em outro planeta, este ainda é a nossa casa.


Talvez muitos não cuidem tão bem dela. Lembrei de uma entrevista do Saramago, onde ele chama atenção para o seguinte ponto: “...o espetáculo que o mundo nos fornece no presente e o espetáculo que o mundo promete no futuro, limito-me a dizer o seguinte: O homem quer, foi e continuará sendo o inventor de todas a maravilhas, da arte, da música, da beleza, de tudo. Mas o homem inventou também, uma coisa que igualmente, não existe na natureza. O homem inventou a crueldade. Nenhum animal é cruel, eu peço que pensem nisso. Inventamos a crueldade e inventamos a tortura. Nenhum animal é cruel, veja bem, um leão caça para comer. Nesse ato, não há crueldade, pois o leão precisa se alimentar. Agora, a crueldade, é obra do homem e a crueldade dirigida contra nosso próprio semelhante é obra nossa...”


A crueldade mencionada por Saramago é o que a sociedade vem fazendo a muito tempo com nossos semelhantes. Com o crescimento das cidades, expansão de estradas, aumento populacional, construção de casas, equipamentos públicos, junto a isso, a vulnerabilidade social e ambiental aflora na periferia, concentrando moradores sem condições de habitar em um local mais estruturado.


Veja bem, as mudanças climáticas não é novidade para o senso comum, as questões de suas consequências estão postas e praticamente todos nós, sabemos, mesmo que superficial, maneiras para mitigar tal efeito. Enchentes, temperaturas extremas, secas, inundações, deslizamentos de terras, são alguns efeitos já sentidos por todos devido ao efeito das mudanças climáticas.


Lembrando a fala de Saramago, de que “A crueldade dirigida contra nosso próprio semelhante é obra nossa”, destaco que os locais periféricos nas cidades, principalmente em regiões metropolitanas, sofrem muito mais com as consequências das mudanças climáticas. Pessoas que vivem nesses locais, estão em um estado de exceção, são grupos segredados por motivos ambientais, se tornou regra. O progresso urbano acaba legitimando a sua existência e perpetuando esta situação, fica evidente, que estes grupos segregados sofrem o Racismo Ambiental.


Para Abreu (2013), o racismo ambiental em sua faceta excludente e preconceituosa têm como consequência a formação destes grupos excluídos, seja na forma de outsiders ambientais, seja na forma de homo sacer ambiental. A exclusão pressupõe, no mínimo, a mitigação da cidadania destes indivíduos, quiçá a extirpação completa desta cidadania, de um modo ou de outro, estes grupos ou indivíduos acabam se caracterizando pela subcidadania.


Repare que estes grupos são desqualificados e anulados como não semelhantes, pois residem em locais sem saneamento básico, sem energia elétrica, sem regularização de suas terras, sem água potável, sem condições à equipamentos públicos, sem acesso à saúde básica, sem educação básica de qualidade. O Racismo Ambiental brasileiro é aceito por parte da população, muitos acreditam que seja natural tais diferenças, tanto entre locais como pela cor da pele. Afinal, negros e mulheres negras são a maioria nesses locais.


A mudança climática não é mais uma abstração científica, mas um fenômeno fabricado por nós humanos cujo impacto é diretamente nas vidas das pessoas, em todo o mundo, embora esse grupo segredado de pessoas são as que menos poluem, são menos responsáveis pelas emissões causadoras da mudança climática, porém, primeiramente as mais vulneráveis.


Entender que as mudanças climáticas vão além do aumento do nível do mar produzido pelo derretimento de geleiras, entender que a mudança climática é mais violenta que a fúria de um furacão, mais violento que a raiva de uma enchente, entender que a mudança climática, pouco a pouco vai causando escassez de comida, aumentando a poluição e a pobreza, além de colocar risco aos avanços de décadas de desenvolvimento social, ambiental e econômico.


Essa injustiça, cujo fardo é mais pesado para aqueles que menos fizeram para causar o problema, deixa claro que precisamos brigar por Justiça Climática.


Se existe um problema de mudança climática, ele é em grande parte, um problema de Justiça Ambiental. Cabe a nós, enquanto contínua existência nesse planeta, dividir os fardos e os benefícios de viver aqui e lembrarmos dos direitos, tantos aos grupos mais vulneráveis de hoje quanto aos grupos futuros de amanhã.

 

Referências


ABREU, I. S. Biopolítica e racismo ambiental no Brasil: a exclusão ambiental dos cidadãos. Opin. jurid. vol.12 no.24 Medellín July/Dec. 2013.


CANIL, K., Moura, R. B., Sulaiman, S. N., Torres, P. H. C., Abreu Netto, A. L., & Jacobi, P. R.. (2021). Vulnerabilidades, riscos e justiça ambiental em escala macro metropolitana. Mercator (fortaleza), 20, e20003. https://doi.org/10.4215/rm2021.e20003.


GARCIA, Rafael. Saramago no Jô. Youtube, 16 de jul. de 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=77Zb_xMRNuE.


HERCULANO, Selene. O clamor por justiça ambiental e contra o racismo ambiental. Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.3, n.1, Artigo 2, jan./ abril 2008.


ROBINSON, Mary. Justiça Climática: esperança, resiliência e a luta por um futuro sustentável. 1 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021.

 

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